16 de fevereiro de 2007

Campanha Cidades Anti-Touradas

Abaixo encontra as questões e objecções mais frequentes que se colocam acerca desta campanha e da exigência do fim das touradas. As perguntas que antecipámos e que abaixo apresentamos, assim como as respostas que apresentamos abaixo, serão certamente muito úteis para levar o público a melhor compreender por que razão exigir o fim das touradas faz tanto sentido – e por que razão, particularmente, faz tanto sentido fazer campanha para criar Cidades Anti-Touradas e mesmo uma Região Anti-Touradas em Portugal, como é objectivo desta campanha da ANIMAL.

Se as touradas são uma tradição e se fazem parte da cultura portuguesa, devem ser preservadas, certo?

Errado – e é preciso expicar bem esta questão. Em primeiro lugar, não se questiona que as touradas são uma tradição – o que se afirma é que são uma tradição cruel e primitiva que não pode ser aceite de modo algum por tudo aquilo que envolve. Em segundo lugar, se por um lado se admite que as touradas de algum modo fazem parte da cultura portuguesa, por outro lado tem que se deixar claro que estão muito longe de serem um elemento importante da cultura portuguesa e que estão ainda mais longe de serem actos culturais representativos da riquíssima cultura de Portugal. Em qualquer caso, o facto de uma dada prática (como as touradas) constituir uma tradição e ser um elemento cultural (quer seja mais ou menos importante) não faz, necessariamente, com que essa prática seja imediatamente aceitável.
O princípio moral segundo o qual nos devemos abster de provocar sofrimento e/ou morte a um animal (humano ou não-humano) é, obviamente, mais forte do que um eventual interesse cultural em manter uma tradição que contrarie este princípio. É o que acontece com as touradas. Assim, as touradas devem ser proibidas por serem actos de violência absolutamente inaceitável contra animais, apesar de poderem ser consideradas uma tradição e até um elemento cultural.

Mas que princípios morais são esses? Quem os define? Os meus princípios morais podem ser diferentes dos vossos!

Está praticamente convencionado que há um conjunto de princípios morais universalmente válidos e aceites como tal. Um destes é o princípio moral segundo o qual devemos abster-nos de provocar sofrimento e/ou morte a outro animal (humano ou não-humano), a não ser quando o acto de infligir sofrimento seja cometido em legítima defesa ou para beneficiar o destinatário desse acto (por exemplo, para tratarmos um animal, humano ou não-humano, que esteja ferido poderemos, durante o tratamento, ter que lhe causar alguma dor, que, nesse caso, é justificada). Quem quiser defender que este princípio não é universalmente válido e aplicável terá que enfrentar as implicações disso, na medida em que, se defender que este princípio é relativo aos indivíduos ou a uma sociedade, estará a defender, consequentemente, que a tortura é aceitável ou condenável dependendo das crenças subjectivas de cada indivíduo ou de uma dada comunidade. A ser assim, não poderia ser universalmente convencionado que a violação dos direitos humanos é intolerável – pois, se certos indivíduos ou certas comunidades aceitassem a tortura, a perseguição e o genocídio, e se se aceitasse que existe liberdade moral para isso, não se poderia condenar, a partir de Portugal, as perseguições e actos genocidas no Darfur, Sudão, por exemplo.

Mas os humanos são mais importantes que os touros e os outros animais, pelo que não se aplicam os mesmos princípios!

Em primeiro lugar, os humanos também são animais – simplesmente, são animais da espécie humana. De um modo geral, os outros animais – entre os quais os touros – têm as mesmas características essenciais que os humanos têm e que fazem com que estes sejam seres importantes e respeitáveis. Todos os animais que têm um sistema nervoso central, ou uma estrutura neurofisiológica semelhante, são seres sencientes, ou seja, são seres que possuem a capacidade elementar de experienciar o sofrimento (e o prazer) físico e psicológico/emocional e que têm uma consciência que faz com que se sintam mal enquanto sujeitos que experienciam o sofrimento ou o prazer que sentem. Mas são seres ainda mais complexos do que isso: têm capacidade para terem desejos e planos, têm vidas sociais e afectivas complexas e têm uma personalidade própria de acordo com a qual vivem as suas vidas, que importam decisivamente para eles. Isto faz com que aquilo que lhes acontece seja importe para eles e faz com que tenham interesses elementares, aos quais devem corresponder correlativos direitos, nomeadamente: (1) o de estarem livres da tortura, física ou psicológica/emocional, (2) o de não serem mantidos prisioneiros e (3) o de não serem mortos. Os mesmos princípios morais fundamentais que se aplicam aos humanos que têm estas características devem, consistentemente, aplicar-se aos outros animais que têm as mesmas características.

O facto da tauromaquia ser uma arte não justificará a sua existência, apesar das críticas? É normal haver quem goste e quem não goste de diferentes formas de arte, mas isso não quer dizer que umas estejam certas e outras erradas.

Como já dissemos anteriormente, não se pode justificar um acto violento e injusto, como é o caso da tourada, com um facto moralmente irrelevante, como seja a ideia de que a tourada será uma arte. Pode-se também questionar que a tourada seja de facto uma arte – é estranho que se aceite que um acto que consiste simplesmente em espetar ferros compridos, com arpões no fim, nos dorsos de touros, por exemplo, seja uma arte. De qualquer modo, mesmo que se aceite que este acto pobre e indecente é uma arte, isso quererá dizer que é uma arte pobre e indecente, que é moralmente repugnante. Não é apenas uma questão de gosto e, como já dissemos acima, não é uma questão relativa. Quando direitos fundamentais de animais (humanos ou não-humanos) estão a ser postos em causa num acto de tortura absolutamente gratuita, nada importa que haja quem goste disso (se houver, é porque quem gosta disso é sádico e terá um gosto patológico pela tortura de outros), ou que isso seja uma arte, uma tradição ou um elemento cultural. É o caso da tourada e é o caso, por exemplo, da mutilação genital feminina – este último acto faz parte do código de comportamento social e tradicional de alguns povos africanos, mas é extremamente cruel e danoso para a saúde de quem é vítima deste. E, mais uma vez, o facto de ser uma tradição, de ser prezado por alguns e de ser visto como importante por quem defende ou comete este acto, não justifica o acto em si, que deve ser absolutamente condenado e proibido.

E o aspecto económico? Não é verdade que as touradas são economicamente importantes para Portugal? E, assim sendo, não deverão ser preservadas por isso?

Não, as touradas são economicamente importantes apenas para quem explora e violenta os touros e cavalos – ou seja, os toureiros, os ganadeiros e os empresários e promotores tauromáquicos. Ainda assim, mesmo que as touradas fossem economicamente importantes para Portugal (estando muito longe de o ser, sendo, além disso, um negócio em declínio), isso, mais uma vez, não serviria de justificação para que fossem mantidas. Em alguns países asiáticos há muitas famílias que forçam as suas filhas a prostituir-se desde muito novas, para alimentarem uma indústria de turismo sexual muito procurada e lucrativa. Estas crianças e jovens são violentadas e a sua liberdade é simplesmente desconsiderada em nome do benefício económico daí retirado para as suas famílias e, em grande medida, para as economias locais, que se alimentam consideravelmente das pessoas que se deslocam propositadamente a estas partes do mundo para poderem pagar para terem sexo com estas crianças e jovens. Esta é uma realidade abjecta que só merece condenação, sem hesitações, e não se pode, em circunstância alguma, tentar justificar esta indústria repugnante com o dinheiro que gera. O mesmo acontece com as touradas.

Mas as touradas são o espectáculo que mais público tem em Portugal!

De acordo com quem? Primeiro, é preciso provar isso – os defensores das touradas passam o tempo a fazer esta afirmação sem alguma vez se darem ao trabalho de a provar. Em segundo lugar, mesmo que isso fosse verdade (e tudo indica que não é), isso só significaria que, infelizmente, um público desinformado e com gosto pela crueldade pagaria para assistir à tortura de animais. No entanto, de que modo é que esse facto, a ser real, justificaria a violência tremenda de que os touros e cavalos são vítimas nestes espectáculos vergonhosos? É simples: não justifica nem justificaria.

Mas os touros foram especificamente criados para as touradas e esta espécie extinguir-se-á se as touradas acabarem.

A espécie de touro habitualmente utilizada nas touradas foi seleccionada geneticamente para que os seus indivíduos fossem torturados em touradas. É um facto. Mas isso não significa que estes indivíduos não sofram – na verdade, sofrem muito nestes espectáculos de sangue. Significa, ao invés disso, que o primeiro erro foi acreditar que é legítimo manipular geneticamente um animal em função de um espectáculo indecente no qual se quer violentar esse animal. Além disso, quando as touradas acabarem, é perfeitamente possível criar um santuário para manter em segurança os touros que forem salvos e que já não serão vítimas de crueldade extrema nestes espectáculos. Isso permitirá impedir que essa espécie se extinga. No entanto, se esta espécie se extinguisse (por exemplo, se todos os touros que fossem salvos morressem de velhice depois de uma vida feliz e se não se reproduzissem de modo a que a espécie se mantivesse), isso não teria qualquer impacto ecológico negativo, exactamente porque esta espécie antes não existia enquanto tal – como os próprios defensores das touradas passam o tempo a lembrar sobre a selecção genética da qual resultou.

Os touros não sofrem, por isso não há razão nenhuma para se querer pôr fim às touradas.

Claro que os touros sofrem – como acima referimos, os touros, como todos os outros animais, têm todas as características neurofisiológicas que fazem com que tenham a capacidade de sofrer. Além disso, basta olhar para um touro a ser torturado na tourada e todos os sinais evidentes de sofrimento estão lá: o cansaço extremo, a confusão e o pânico, a expressão de sofrimento, as lesões físicas, a carne e os músculos dilacerados, as perdas de litros de sangue, nomeadamente pela boca, entre outros sinais. Basta olhar para testemunhar este sofrimento horrível.

Sim, talvez sofram um pouco, mas os touros são animais de combate – precisam de ser lidados nas touradas para serem felizes.

É interessante que os defensores dos animais afirmem isto em defesa das touradas – os defensores das lutas de cães defendem exactamente o mesmo em relação aos cães que forçam a participar em lutas tremendamente cruéis, de onde saem já sem vida. Se todos nos opomos, sem hesitações, às lutas de cães, que são proibidas pela lei portuguesa, temos, consequentemente, que opor-nos também, sem hesitações, às touradas e exigir que sejam também proibidas.

Gostar de touradas é uma questão de liberdade – tem que haver liberdade para se gostar de touradas, para se promover estes espectáculos e para se assistir a eles, e, ao mesmo tempo, tem que haver liberdade para que quem não goste de touradas não assista a estes espectáculos.

Mais uma vez, é importante clarificar que não se pode ter a liberdade de apreciar a tortura de que outros seres são vítimas – desde logo, porque a liberdade que estes outros seres têm de estarem livres da tortura deve ser primeiramente respeitada. Isso não acontece nas touradas, obviamente.

Não estarão a tentar impor a vossa vontade aos outros só porque pensam que vocês é que estão certos?

Como também já defendemos acima, não estamos a discutir vontades pessoais nem princípios morais subjectivos; estamos, isso sim, a defender que uma das implicações elementares do princípio moral universal de que é errado cometer um acto de tortura, sobretudo se ele for cometido com fins lúdicos ou comerciais (como é o caso das touradas), é condenar as touradas de forma absoluta e exigir o seu fim imediato, total e definitivo. Esta é a atitude certa, não porque somos nós a defendê-la, mas porque está de acordo com esse princípio moral com o qual todos necessariamente concordamos.

Não é falta de patriotismo apelar a um boicote ao turismo em certas zonas de Portugal como fazem nesta vossa campanha?

Falta de patriotismo é continuar a permitir que Portugal, um país bonito que é um destinos de férias tão apreciado por tantos europeus e por tantos turistas estrangeiros de outros continentes, continue a ser um país onde os animais são tratados de forma rotineiramente cruel e em que a sua miséria seja institucionalmente cultivada. Todos os portugueses têm o dever moral de se envolver na protecção dos animais e na concretização de medidas que aumentem a protecção destes, e que todas as autoridades públicas portuguesas têm o dever de tomar medidas urgentes para fazer com que Portugal deixe de ser um inferno para os animais. Isso passa, necessariamente, por proibir as touradas, entre outros actos cruéis cometidos contra animais. Ao exigirmos a proibição das touradas, estaremos a ser efectivamente um povo patriota que quer que o seu país tenha uma imagem moderna e civilizada – e uma realidade que de facto lhe corresponda, em que os animais sejam respeitados e protegidos. Ao proibirem as touradas, as autoridades públicas portuguesas estarão, na verdade, a defender os interesses de Portugal e da economia portuguesa e a imagem de um país que, presentemente, é considerado incivilizado e subdesenvolvido na maneira como lida com os animais e os problemas que drasticamente os afectam aqui.


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