
O Triunfo dos Porcos, o clássico de George Orwell, é normalmente considerado uma fábula acerca do totalitarismo e da Rússia. Tanto os críticos literários como os leitores comuns parecem ver a intriga com os animais como um mero pretexto e motor da história. Orwell, no entanto, via-a a uma outra luz e explicou num prefácio escrito para a tradução ucraniana que a história lhe ocorreu quando viu um rapaz com talvez 10 anos de idade maltratar um cavalo. Foi surpreendido com a força da revelação «de que os homens exploram os animais de uma forma muito semelhante à forma como os ricos exploram o proletariado». Explicou ainda que andou com as ideias de Marx à volta na cabeça: «Procedi à análise da teoria de Marx do ponto de vista dos animais. Para eles, era claro que o conceito de luta de classes entre os seres humanos era uma ilusão pura, uma vez que, sempre que era necessário explorar os animais, todos os seres humanos se uniam contra eles: a verdadeira luta é a que acontece entre os animais e os seres humanos». Embora o itálico seja meu, tudo nos sugere que Orwell estava de facto convicto do que afirmou. De facto, no início do livro, Orwell faz dizer o seguinte aos animais da quinta: «Nenhum animal de Inglaterra conhece o significado da felicidade ou do lazer a partir da altura em que completa o primeiro ano de idade. Nenhum animal de Inglaterra é livre. A vida de qualquer animal é miséria e escravidão: esta é a pura verdade.» Não se tratará de um eco deliberado da famosa afirmação de Jean-Jacques Rousseau, de que o homem nasce livre, mas por toda a parte o encontramos escravizado?
O filósofo Stephen Clark observou uma vez que a escravidão humana apenas começou com a agricultura. Os caçadores-recolectores não faziam escravos, da mesma forma que não se envolviam frequentemente em guerras, uma vez que sem propriedade não havia muito por que lutar. Foram a agricultura e a domesticação dos animais, com o seu sentido inato das coisas que pertencem a umas pessoas, mas não a outras, que determinaram a força crescente da importância social e o início da guerra.
A comparação entre a escravatura e a domesticação de animais não é nova. Tal como muitas outras atitudes ocidentais, pode ser encontrada em Aristóteles, que escreveu na Política:
Para todos os animais domésticos há vantagens em estarem sob o domínio humano, uma vez que isso assegura a sua sobrevivência [...] Por analogia, isto aplica-se necessariamente também ao género humano como um todo [...] estas pessoas são escravas por natureza, e é preferível para elas estarem sujeitas a este tipo de domínio, da mesma forma que é preferível para as outras criaturas a que me referi.
A guerra e a caça, continua Aristóteles, são parte desta filosofia e ambos devem ser usados contra os animais e «aqueles homens de cuja natureza faz parte o serem governados por outros». Estas leis parecem muito favoráveis aos homens da classe de Aristóteles. As atitudes deste tipo morrem de uma morte muito lenta.
O filósofo Stephen Clark observou uma vez que a escravidão humana apenas começou com a agricultura. Os caçadores-recolectores não faziam escravos, da mesma forma que não se envolviam frequentemente em guerras, uma vez que sem propriedade não havia muito por que lutar. Foram a agricultura e a domesticação dos animais, com o seu sentido inato das coisas que pertencem a umas pessoas, mas não a outras, que determinaram a força crescente da importância social e o início da guerra.
A comparação entre a escravatura e a domesticação de animais não é nova. Tal como muitas outras atitudes ocidentais, pode ser encontrada em Aristóteles, que escreveu na Política:
Para todos os animais domésticos há vantagens em estarem sob o domínio humano, uma vez que isso assegura a sua sobrevivência [...] Por analogia, isto aplica-se necessariamente também ao género humano como um todo [...] estas pessoas são escravas por natureza, e é preferível para elas estarem sujeitas a este tipo de domínio, da mesma forma que é preferível para as outras criaturas a que me referi.
A guerra e a caça, continua Aristóteles, são parte desta filosofia e ambos devem ser usados contra os animais e «aqueles homens de cuja natureza faz parte o serem governados por outros». Estas leis parecem muito favoráveis aos homens da classe de Aristóteles. As atitudes deste tipo morrem de uma morte muito lenta.
Jeffrey Moussaieff Masson
in O Porquinho que Cantava à Lua, 2005
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