21 de Maio de 1994Não sei se os cães têm só instinto, se é lícito designar por manifestações de inteligência propriamente dita (e isto que quererá dizer?) certos seus procedimentos correntes. Do que não pode haver dúvidas é de que
Pepe esteja superiormente dotado do que chamamos sensibilidade, se não no sentido humano, pelo menos naquele que nos permite dizer, por exemplo, que um aparelho de precisão está afinado para registar diferenças ou erros levíssimos. De um erro, precisamente, se tratou neste caso, um erro de que o cão se apercebeu ter cometido e que, no mesmo instante, emendou. A história conta-se em menos palavras do que as que já levo escritas. Estava sentado, a ler, quando ouço um conhecido raspar de unhas numa das janelas que dão para o terraço: é
Pepe a pedir que lhe abram a porta. Levantei-me e fui abrir. Entrou sem me dar atenção, disparado como um tiro, atraído pelos cheiros de comida que vinham da cozinha, onde se preparava o almoço, quando de repente, ainda à minha vista, estacou, virou-se para mim, olhou-me durante dois segundos, de focinho bem erguido, e só depois, devagar, continuou o seu caminho. Não aconteceu mais do que isto, mas a mim ninguém me tira da cabeça que
Pepe se deu conta de que não me tinha agradecido e parou para pedir desculpa...
José Saramagoin Cadernos de Lanzarote, 1998