28 de fevereiro de 2007

Boicote

As pessoas que lucram com a exploração de grandes quantidades de animais não precisam da nossa aprovação. Precisam do nosso dinheiro. A aquisição dos cadáveres dos animais que criam é o principal apoio que os produtores pedem às pessoas em geral (o outro, em muitos países, é a atribuição de consideráveis subsídios por parte do governo). Os produtores utilizarão métodos intensivos enquanto conseguirem vender o produto destes métodos: terão recursos para combater politicamente as reformas e poderão defender-se das críticas com a afirmação de que se limitam a dar às pessoas aquilo que elas querem.

(...)

É neste ponto que as consequências do especismo interferem directamente nas nossas vidas e somos forçados a provar pessoalmente a sinceridade da nossa preocupação relativamente aos animais não humanos. Temos, a este respeito, a oportunidade de fazer algo, em vez de simplesmente falar e desejar que os políticos façam algo. É fácil tomar posição acerca de uma questão remota, mas os especistas, como os racistas, revelam a sua verdadeira natureza quando a questão se torna mais próxima.

Peter Singer
in Libertação Animal, 1990

27 de fevereiro de 2007

Especismo

Os racistas violam o princípio da igualdade, atribuindo maior peso aos interesses dos membros da sua própria raça quando existe um conflito entre os seus interesses e os interesses daqueles pertencentes a outra raça. Os sexistas violam o princípio da igualdade ao favorecerem os interesses do seu próprio sexo. Da mesma forma, os especistas permitem que os interesses da sua própria espécie dominem os interesses maiores dos membros das outras espécies. O padrão é, em cada caso, idêntico.

Peter Singer
in Libertação Animal, 1990

26 de fevereiro de 2007

Criação de Animais como Alimento

Do ponto de vista prático, não é possível criar animais como alimento, em grande escala, sem lhes inflingir um sofrimento considerável. Mesmo que não fossem utilizados métodos intensivos, teríamos a criação animal tradicional que envolve castração, separação da mãe e da cria, ruptura de grupos sociais, marcação a ferro, transporte para o matadouro e, finalmente, o próprio abate. É difícil imaginar um modo como os animais poderiam ser criados para servirem de alimento sem estas formas de sofrimento. Talvez pudesse ser feito em pequena escala, mas nunca conseguiríamos alimentar as enormes populações urbanas actuais com carne obtida desta forma. Se isso fosse de algum modo possível, a carne do animal assim criado seria muito mais cara do que a carne o é actualmente - e a criação de animais é já um modo dispendioso e ineficiente de produção de proteínas. A carne dos animais criados e mortos em obediência ao princípio da igual consideração do bem-estar dos animais seria uma iguaria apenas acessível aos ricos.

Peter Singer
in Libertação Animal, 1990

Nutrição - dúvidas frequentes

Por que razão há pessoas que adoecem ao tornar-se vegetarianas?
Porque se tornam vegetarianas sem estarem devidamente informadas sobre como ter uma dieta vegetariana equilibrada. Deve procurar-se esta informação junto de um dietista ou nutricionista que conheça os diversos aspectos da nutrição vegetariana e que procure compreender as suas motivações pessoais para esta mudança e recomendar-lhe uma dieta adequada a si e às suas necessidades. As pessoas não são todas iguais e, apesar das necessidades nutricionais serem basicamente as mesmas entre todos os humanos, estas variam, ainda assim, de indivíduo para indivíduo. Contudo, seguir uma dieta vegetariana é mais simples do que possa pensar – como este site pretende demonstrar.

Como devo fazer, então?
A melhoria na saúde que advém de uma dieta vegetariana está dependente de uma alimentação variada, equilibrada e adequada, rica em alimentos de origem vegetal enriquecidos em ferro, cálcio, zinco, vitamina B12 e Omega-3, e também da prática regular de actividade física – de preferência ao ar livre, para sintetizar a tão importante vitamina D. Não hesite em contactar-nos, através de SejaVegetariano@animal.org.pt, para obter um acompanhamento nosso mais personalizado.

A proteína animal não faz mesmo falta?
Não, pelo contrário. O nosso organismo sintetiza proteínas através de aminoácidos, que, por sua vez, têm origem nas proteínas que ingerimos através da alimentação. Uma dieta vegetariana com bastante variedade, incluindo feijões, lentilhas, grãos e vegetais em geral, fornece-nos todos os aminoácidos necessários. Os regimes vegetarianos podem contribuir com todos os aminoácidos essenciais, desde que o regime seja abundante e variado. A quantidade total de proteína necessária está, portanto, relacionada com a constituição das diferentes fracções ingeridas. Ao contrário do que se pensava, para que seja aproveitado todo o potencial proteico destes alimentos, não é obrigatória uma combinação destes na mesma refeição, mas sim a sua ingestão ao longo do dia. Não se deve, no entanto, esquecer que a dose energética diária (quilocalorias ingeridas diariamente) deve ser adequada, para que o nosso organismo possa aproveitar todo o potencial proteico deste tipo de alimentos. A alimentação livre de proteína animal é, por tudo isto, considerada eficiente do ponto de vista proteico, sendo perfeitamente dispensáveis todos os alimentos de origem animal.

E o cálcio? Existe só no leite?
Não. Poderá encontrar cálcio em alimentos como os citrinos, o pão, a couve e outros vegetais de folhas verde-escuras, os figos, as amêndoas, e todos os alimentos enriquecidos com cálcio, como o leite e os iogurtes de soja e os comuns cereais de pequeno-almoço. Para potencializar a absorção do cálcio fornecido pelos alimentos de origem vegetal, basta ingerir, numa mesma refeição, alimentos de origem vegetal ricos em ferro e vitamina C e alimentos vegetais fornecedores de cálcio. Esta combinação torna mais eficaz a assimilação do cálcio. O cálcio é um dos principais constituintes da estrutura óssea e do esmalte dos dentes. Tem um papel importante na interacção com várias hormonas, responsáveis pelo controlo da absorção e da excreção deste mineral, bem como no metabolismo ósseo. Sabe-se que a presença de proteínas animais na alimentação contribui para a modificação da concentração de cálcio no sangue, ou seja, o consumo deste tipo de proteínas, por terem um teor em enxofre mais elevado do que a proteína vegetal, conduz ao aumento da produção de ácidos metabólicos que acidificam o sangue. Para o neutralizar, ocorre a perda de cálcio ósseo. Na maior parte dos casos, quem ingere mais cálcio é também quem ingere mais proteínas de origem animal (nomeadamente através do leite), e, por isso, apresenta valores tão elevados de perda de cálcio.

E o ferro? Está presente nas dietas vegetarianas?
Sim, o ferro encontra-se numa dieta vegetariana. O ferro encontrado nos alimentos pode existir sob duas formas: hémico e não-hémico. O primeiro encontra-se em produtos animais, como as vísceras (fígado), a carne, incluindo a carne de peixe (e marisco), e os ovos, e o segundo encontra-se nos legumes de folha verde, nos damascos, ervilhas, feijões, frutos secos e cereais enriquecidos. A grande diferença entre estes dois tipos de ferro está na forma como cada um deles é absorvido: o ferro hémico é absorvido em cerca de 15 a 35%; o ferro não-hémico é absorvido numa proporção de cerca de 2% a 20%. A absorção é influenciada por factores nutricionais, uma vez que alguns alimentos e bebidas bloqueiam a sua absorção quando consumidos nas mesmas refeições. Assim, os componentes de uma refeição podem ter efeito tanto no aumento como na diminuição da absorção do ferro não-hémico. Ingerir alimentos ricos em vitamina C facilita e aumenta a absorção do ferro não-hémico.
Quanto aos factores que diminuem a absorção do ferro não-hémico, são:
- A ingestão de bebidas que contêm taninos, como os chás preto e verde e o café. Devem-se evitar à refeição ou juntamente com alimentos ricos em ferro, uma vez que o tanino, combinado com o ferro, forma um composto insolúvel, não sendo absorvido.
- A ingestão de alimentos ricos em oxalatos, como é o caso do chocolate e dos espinafres.

E a vitamina B12? Está só presente em produtos de origem animal, certo?
Errado. Embora sintetizada por bactérias, a vitamina B12 encontra-se maioritariamente em tecidos animais. No entanto, pode ser também encontrada em pequenas quantidades nos produtos vegetais fermentados onde é produzida por bactérias do tipo lactobacilos e coliformes. Alguns mamíferos herbívoros têm microrganismos no seu intestino que produzem esta vitamina. No caso dos humanos, através de um certo tipo de bactérias (colibacilos) existentes no intestino, faz-se a síntese de uma parte importante desta vitamina, mas, por razões de absorção insuficiente, as necessidades humanas só são completamente satisfeitas pela vitamina B12 que se encontra incluída nos alimentos. A ausência de vitamina B12 activa na alimentação diária conduz a estados de carência graves, caracterizados por sintomas relacionados com a anemia e problemas do sistema nervoso, nomeadamente perda de energia, redução da sensibilidade à dor ou ao toque, dormência, visão desfocada, perda de memória, confusão mental, alucinações e alterações de personalidade. Estes sintomas desenvolvem-se ao longo de vários meses, podendo durar anos até que seja diagnosticada a carência desta vitamina. Para ter a certeza de que consome a Dose Diária Recomendada (DDR) de 3 microgramas (Xg) por dia desta vitamina, basta consultar as tabelas de informação nutricional apresentadas nos rótulos dos alimentos consumidos. De forma a controlar os níveis de vitamina B12 no organismo, os vegetarianos devem fazer testes anuais referentes a esta vitamina, tendo sempre o cuidado de referir o tipo de dieta praticada, pois os testes relativos aos níveis sanguíneos de B12 não são adequados para vegetarianos, visto que estes podem ser facilmente mal interpretados devido não só ao consumo de moléculas análogas (semelhantes) e inactivas desta vitamina, mas também devido à ingestão elevada de folatos (característica da dieta vegetariana), camuflando os sintomas de anemia provocada pela deficiência de B12. Alguns alimentos que são fontes de B12 são a levedura de cerveja (se for enriquecida) e alguns alimentos enriquecidos, como o leite de soja ou os cereais de pequeno almoço (apenas se forem de facto enriquecidos).

E quanto à vitamina D?
Os vegetarianos podem conseguir uma boa dose de vitamina D através da exposição diária ao sol, durante a Primavera, Verão e Outono; no Inverno, através do consumo de alimentos enriquecidos, como os cereais de pequeno-almoço e o leite de soja, entre outros. A vitamina D é uma vitamina solúvel em gordura (lipossolúvel) que pode actuar como uma hormona regulando a formação do tecido ósseo e a absorção de cálcio e fósforo através do intestino. Pode ser facilmente conseguida a partir da exposição da pele ao sol diariamente. Sabe-se que cerca de 80% a 100% da vitamina D utilizada pelo organismo é sintetizada através da incidência do sol na pele. Pessoas com pele escura ou que vivam em latitudes elevadas, ou cuja tradição e cultura obriguem a que o corpo esteja completamente tapado por roupas (países islâmicos), têm mais dificuldade na síntese desta vitamina, pelo que, nestes casos, é aconselhável o consumo de alimentos enriquecidos com vitamina D. Estes produtos devem também fazer parte da dieta diária de indivíduos vegetarianos que habitem em elevadas latitudes e mulheres vegetarianas grávidas ou que estejam a amamentar.

E a vitamina A?
Esta vitamina é frequentemente encontrada em alimentos de origem animal. Contudo, existem alguns compostos relacionados com as vitaminas que podem ser convertidos em vitamina activa dentro do organismo. A estes compostos chamam-se próvitaminas, e o B-caroteno (beta-caroteno) é um exemplo destas. Quando em excesso, esta vitamina é armazenada no organismo, podendo vir a atingir níveis tóxicos. O consumo de B-caroteno é uma opção que previne a acumulação excessiva desta vitamina, pois pode ser consumido em doses elevadas sem que haja acumulação prejudicial ao organismo. O B-caroteno pode ser encontrado em alimentos como vegetais e legumes amarelos ou laranja, folhas de vegetais ou frutos como o pêssego e a manga. Para a eficaz absorção desta vitamina, basta acrescentar pequenas quantidades de gordura (preferencialmente, azeite, que é uma gordura vegetal e é uma das mais saudáveis) na confecção dos alimentos. Esta vitamina tem um papel muito importante na formação dos ossos, para manter em bom estado a visão, pele e cabelos e no processo de crescimento. A sua deficiência leva a visão deficiente à noite, sensibilidade à luz, redução do olfacto e do paladar e a pele e mucosas secas e com frequentes infecções.

E iodo?
A inclusão de alimentos como o feijão de soja, tapioca, batatas-doces, cereais como maize, millet e algas como nori e kombu, numa dieta vegetariana, é uma preciosa ajuda na obtenção das quantidades mínimas diárias de iodo. O iodo é essencial para o bom funcionamento da glândula da tiróide, responsável pela produção das hormonas tiroxina e triodotironina, que, por sua vez, actuam no crescimento físico e neurológico e na manutenção do fluxo normal de energia (metabolismo basal). São também muito importantes para o funcionamento do coração, fígado, rins e ovários.

E os ácidos gordos Omega-3 e Omega-6, estão presentes nas dietas vegetarianas?
De maneira geral, as dietas vegetarianas são ricas em ácidos gordos Omega-6, pois são facilmente encontrados em nozes, milho, sementes, soja e óleos vegetais, não sendo, por isso, frequente a carência deste tipo de gordura em vegetarianos. Os ácidos gordos Omega-6 podem ajudar a reduzir os níveis de colesterol LDL e do colesterol total. Os Omega-3 não são tão frequentemente encontrados numa dieta vegetariana. Sendo estas duas substâncias de uma importância fulcral em diversos processos do organismo, é essencial evitar a sua carência, ingerindo nozes, óleos vegetais, tofu, feijão de soja, algas e sementes de linhaça. Embora a maioria das pessoas ache que deve eliminar as gorduras da alimentação, a verdade é que nem todas as gorduras devem ser eliminadas. Alguns tipos de gordura, como os ácidos gordos polinsaturados Omega-6 e Omega-3, são essenciais para a saúde. Mulheres vegetarianas grávidas ou em período de amamentação devem aumentar o consumo de alimentos fornecedores de Omega-3.

O zinco também se encontra nas dietas vegetarianas?
Embora o zinco não exista em grandes quantidades em alimentos de origem vegetal, a maioria dos vegetarianos consegue manter os níveis de zinco dentro dos valores ideais, pois está presente em legumes, avelãs, milho, ervilhas, lentilhas, amendoins, manteiga de amendoim, sementes de abóbora e girassol e cereais de pequeno-almoço enriquecidos com zinco. Deve ingerir alimentos que sejam ricos em proteínas e simultaneamente em zinco, pois as primeiras contribuem para o aumento da absorção intestinal de zinco. Legumes, frutos oleoginosos, tempeh e miso são boas opções. O zinco é um mineral com importantes funções no crescimento e divisão celular, na síntese de proteínas e ADN, e no metabolismo dos hidratos de carbono, lípidos e proteínas. Tem um papel importante na cicatrização, na manutenção do bom estado da pele e do sistema imunológico, e é um componente vital de várias reacções enzimáticas. Os primeiros sintomas da carência de zinco incluem atraso no crescimento e na maturação sexual em crianças. Nos adultos, os sintomas de falta de zinco são: fraca cicatrização, queda de cabelo, problemas imunológicos e infecções cutâneas (especialmente à volta de orifícios corporais). Mulheres vegetarianas grávidas ou que estejam em período de amamentação devem incluir na sua alimentação maiores quantidades de alimentos ricos em zinco.

22 de fevereiro de 2007

Receitas Vegetarianas

Porquê o Vegetarianismo? ><2><

Porquê o Vegetarianismo?
O Que é o Vegetarianismo?
Não São os Humanos Omnívoros? É Saudável Ser-se Vegetariano?
Que Diferença Faz Mais Um Vegetariano? Os Mesmos Animais Vão Continuar a Ser Criados e Abatidos Para Consumo!
As Plantas Também São Seres Vivos e Também Sofrem! Logo, Também É Errado Comê-las.
Se os Animais Se Comem Uns aos Outros, o Que Há de Errado Em Que Nós os Comamos a Eles?
Não Estão os Humanos no Topo da Cadeia Alimentar?
Os Argumentos a Favor do Vegetarianismo São Bons. No Entanto, o Vegetarianismo Parece-me Demasiado Radical.
Se Fôssemos Todos Vegetarianos, Não Seria o Fim dos Animais Usados Para Consumo?
O Vegetarianismo é Bom Para Quem Não Gosta de Carne. Eu Acho Que Nunca Seria Capaz...
Não Deveríamos Nós Pedir Um Abate Mais Humano Em Vez de Defender o Vegetarianismo?
Por Que Não Há Mais Vegetarianos? Quais São os Principais Obstáculos ao Vegetarianismo?
É Mais Recomendável Ser Vegano ou Vegetariano?
Por Que Motivo os Vegetarianos Querem Converter à Força os Não-vegetarianos?

Porquê o Vegetarianismo? ><1><

Porque é que defendem o vegetarianismo?
Existindo uma alternativa saudável e saborosa, preferimos evitar o sofrimento, exploração e morte de animais que sentem e sofrem tal como os humanos, excluindo-os da nossa alimentação.

Os animais não sofrem!
Os humanos, que também são animais, rejeitam ser explorados ou mortos porque preferem viver uma vida sem sofrimento. São dotados da capacidade de sofrer porque possuem um sistema nervoso central, que lhes permite compreender que uma situação, como ser explorado ou morto, é indesejada. Só através do medo e violência se consegue obrigar um humano a fazer algo que este não deseja. Os animais usados na alimentação possuem também a capacidade de sofrer porque possuem um sistema nervoso central, tal como os humanos. São capazes de criar laços afectivos, sentir alegria, ansiedade e dor. Os animais sentem mais do que possamos pensar inicialmente.

Como é que podemos ter a certeza que os animais sofrem?
O sofrimento é um estado de consciência e por isso nunca pode ser observado. Podemos apenas inferi-lo a partir de sinais exteriores. Quando vemos alguém a magoar-se, inferimos que essa pessoa se magoou pelas suas expressões faciais, movimentos corporais e por gemidos. Quase todos os sinais exteriores de sofrimento, que nos levam a concluir que os outros humanos sofrem como nós, podem também ser observados noutras espécies, especialmente mamíferos e aves. Estes sinais incluem contorção do corpo e da face, gemidos, uivos ou outras formas de chamamento, tentativas de evitar a fonte de dor, aparência de ter medo na possibilidade da sua repetição, entre outros. Para além disso quando um animal sente dor existe um aumento inicial da pressão sanguínea, dilatação das pupilas, perspiração, aumento do ritmo cardíaco e, se o estímulo se mantiver, uma redução da pressão sanguínea, tal e qual como nos humanos. Embora os humanos possuam um córtex cerebral mais desenvolvido do que os outros animais, esta zona é responsável por funções como o raciocínio e não por impulsos básicos, emoções ou sentimentos. A zona responsável por estas funções mais primárias é o diencéfalo e este está bem desenvolvido em todos os mamíferos e aves.

Então também não comem peixes/moluscos/caracóis?
Eles não sofrem tanto. É difícil estabelecer uma fronteira exacta entre os animais que têm auto-consciência e desejo de não morrer e os animais que têm uma capacidade rudimentar e simples de percepção e resposta a estímulos. Da mesma forma, é difícil precisar, por exemplo, a partir de que altura é que uma pessoa é alta ou a partir de que idade uma pessoa é idosa. Mesmo assim, sendo os peixes/moluscos/caracóis animais que apresentam uma maior simplicidade ao nível do sistema nervoso, não significa que estes possam ser explorados e mortos unicamente para servir a fome dos humanos, quando estes possuem formas alternativas de se alimentarem. Vários estudos científicos provam que, por exemplo, os peixes são também capazes de sentir dor e apresentam uma complexa capacidade de reagir a ela, tal como os humanos.

Os animais são criados para os comermos!
O facto de um animal ser criado com um certo objectivo não altera a sua capacidade biológica de sentir sofrimento e de desejar não morrer. Este sentimento é igual nos humanos e faz com que qualquer pessoa não tenha o direito de explorar e matar outros humanos. Logo, o conceito de criar e matar animais para consumo humano é eticamente reprovável.

E as plantas… não sofrem?
Não, as plantas não sofrem nem possuem a capacidade de criar expectativas, nem de desejar não morrer. Elas não possuem qualquer centro de organização de informação (o cérebro) como os animais. As plantas são capazes de responder a certos estímulos exteriores, que podem levar a alterações no seu desenvolvimento ou crescimento e possuem também um sistema hormonal complexo mas, até hoje, nunca foi encontrada qualquer prova cientificamente válida de que elas sofram.

Será que elas sentem e ninguém ainda o descobriu?
É improvável mas talvez possível. Pelo menos, por enquanto, devemos pensar naquilo que já sabemos, e o que se sabe é que os animais que comemos sentem e sofrem como os humanos.

Se os animais comem outros animais, porque é que eu não hei-de comer? É a lei da Natureza.
Ao contrário dos outros animais, os humanos, por serem animais racionais, conseguem criar novas alternativas e são capazes de escolher uma mudança de hábitos. Para isso basta-lhe ter uma boa razão para a mudança de hábitos, e a ética e o respeito pelos outros seres que habitam connosco este planeta é uma óptima razão. Um leão não consegue raciocinar sobre ética ou criar novas alternativas e por isso nunca chega a pôr a hipótese de poder alterar os seus hábitos.

Um animal irracional não tem direitos porque não tem deveres.
Mesmo que de um ponto de vista jurídico um animal não possua direitos, os humanos têm o dever moral de respeitar esse animal e de não explorar ou provocar sofrimento desnecessário, pois é um indivíduo que possui a capacidade de sentir dor e sofrimento, de criar laços afectivos e de ter o desejo de não morrer, tal como os humanos.

Os humanos são omnívoros e por isso têm de comer carne.
Os humanos de facto são omnívoros mas isso não nos obriga necessariamente a comer carne. Permite-nos, sim, escolher entre uma alimentação baseada em carne e peixe ou uma baseada maioritária ou exclusivamente em vegetais. Apenas para que compreenda que não somos “fisiologicamente obrigados” a comer carne, note nas diferenças que nos levam a ser mais aptos para uma alimentação vegetariana do que para uma baseada em carne: os animais carnívoros possuem garras, dentes caninos longos e ausência de molares posteriores, acidez do suco estomacal muito elevado e digestão rápida dos alimentos; por outro lado, os humanos e herbívoros não possuem garras, os seus caninos são minúsculos (nos humanos, estando melhor preparados para trincar fruta do que para rasgar a carne de um animal) ou inexistentes (herbívoros), possuem molares posteriores, o ácido do estômago é 20 vezes menos concentrado do que nos carnívoros e a digestão dos alimentos é relativamente lenta.

Eu prefiro comer animais de criação extensiva. Esses não são maltratados.
De facto, o conceito de criação extensiva pressupõe um menor sofrimento durante a criação dos animais. No entanto, estes animais possuem, tal como os humanos, a capacidade de sentir sofrimento, dor e angústia e não desejam ser explorados nem mortos para servir as necessidades de outro animal. Assim, em qualquer tipo de criação animal, o respeito para com os animais que possuem estes sentimentos é violado. Por outro lado, a criação extensiva também recorre aos mesmos métodos de transporte e morte no matadouro utilizados na criação intensiva, sendo os animais mortos em condições extremas, agonizando até ao seu último momento de vida. Em nenhum dos sistemas se pode dizer que o animal não sofre ou sofre pouco. Para que se coma o animal ele teve que morrer e para ele morrer teve de sofrer. Não existe um método indolor de matar animais. Mesmo que existisse, apesar de ser uma maneira mais "simpática", continuar-se-ia a explorar e a matar um animal com o único objectivo de saciar a sua fome, quando existem outras formas de o fazer sem causar sofrimento. A questão principal não deve ser: “como é que se pode diminuir o sofrimento?” mas sim “como é que se pode acabar com o sofrimento?”. A resposta está na vontade de cada um.

O que me preocupa é a fome/guerra/desemprego/trabalho infantil/abandono de animais de companhia/touradas/etc.... O vegetarianismo é pouco importante.
Estas questões são de facto muito importantes e cada pessoa deve fazer o máximo para que mudem. A grande diferença é que enquanto uma pessoa tem pouco ou nenhum poder para alterar a forma como certas coisas são feitas por outras pessoas, qualquer um de nós tem o poder de alterar o que está mais ao seu alcance – a sua alimentação. O vegetarianismo não impede nem se sobrepõe a outras causas justas que defenda.

Não é pelo facto de eu me tornar vegetariano/a que vá fazer alguma diferença.
O poder dos consumidores é um dos maiores que existe. Ao se recusar a comprar produtos de origem animal, leva a uma redução dos lucros de uma indústria que os obtem através da exploração e morte animal. Ao consumir produtos vegetarianos permite que estes estejam mais acessíveis para futuras gerações. Foi com o empenho inicial de apenas alguns vegetarianos que se conseguiu hoje criar uma enorme rede de lojas e restaurantes vegetarianos, ao passo que o consumo de carne tem vindo a diminuir nos países desenvolvidos.

Comer carne não é contra natura.
Sim, mas também não é isso que tentamos dizer. O que dizemos é que se existe uma alternativa vegetariana à ingestão de carne que é mais saudável, saborosa, ecologicamente mais responsável e que, principalmente, rejeita a exploração dos animais, então cada um de nós deve reflectir sobre as vantagens que esta alimentação tem e se a consegue implementar no seu dia-a-dia. Se conseguir fazê-lo estará a fazer bem a si, ao planeta e aos animais.

Os humanos estão no topo da cadeia alimentar. São predadores. Se deixarmos de comer carne o ecossistema deixa de funcionar.
Há muito tempo que esta cadeia foi manipulada/subvertida pela indústria da carne, de forma a produzir enormes quantidades de carne para toda a população, afastando-se a passos largos do que se entende por uma cadeia alimentar equilibrada. Os humanos não têm necessidade de comer carne e podem facilmente substitui-la por alimentos de origem vegetal. Com a enorme quantidade de recursos gastos e poluição produzida pela indústria da produção animal é que se vai aumentando diariamente o desequilíbrio entre a Natureza e o Homem.

Se nós não comermos os animais eles ficavam à solta.
Isso só seria possível se a partir de amanhã todas as pessoas se tornassem vegetarianas. Como esta mensagem não chega a todas as pessoas ao mesmo tempo, há uma diminuição gradual desta indústria o que leva a que nunca exista a necessidade de libertar os animais, mas sim de deixar de os criar e explorar.

A criação de carne alimenta uma indústria que dá emprego a muita gente.
Isso é verdade mas não seria a primeira vez que novos hábitos sociais mudariam a economia e, portanto, o emprego dos trabalhadores. Os postos de trabalho não iriam diminuir, apenas iriam ser substituídos. Qualquer ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e muitas tarefas desaparecem frequentemente para dar lugar a outras. Por exemplo, o aparecimento dos automóveis levou a que os postos de trabalho para construtores de coches e criadores de cavalos diminuíssem acentuadamente, mas novos postos de trabalho foram criados para a contrução e manutenção de carros.

Se não comermos os animais, certas espécies extinguem-se.
E será eticamente correcto provocar sofrimento, explorar e matar animais de uma espécie com a justificação de evitar que a espécie se extinga?

É impossível sermos todos vegetarianos. Os esquimós, por exemplo, têm obrigatoriamente de se alimentar de animais.
O vegetarianismo parte do princípio de que se deve evitar, sempre que possível, a ingestão de animais. Se não for possível, tal como para os esquimós que não têm nenhuma outra fonte de nutrientes que não seja animal, então cada um, dentro das suas possibilidades, deve fazer o máximo para evitar o sofrimento animal. No entanto, cabe a cada um de nós a tarefa de criar as condições para que exista uma alternativa.

Uma alimentação vegetariana, como exclui a carne, tem menos diversidade do que uma alimentação com carne.
Pelo contrário. A alimentação vegetariana recorre a uma variedade de alimentos que não chegam a ser utilizados numa alimentação não-vegetariana. Se experimentar o vegetarianismo, vai reparar que existe uma variedade surpreendente de alimentos, que não conhecia ou não usava, e que podem ser cozinhados de mil e uma maneiras saborosas.

Se eu não comer carne não vou ingerir proteínas/ferro/calorias suficientes e posso ficar doente.
Se continuar a comer carne também pode ficar doente. Desde que faça uma alimentação equilibrada e diversificada não deverá ter problemas de carência de qualquer nutriente, pelo contrário, observará que a sua saúde melhora ou, no mínimo, mantém-se. Se continua com receio visite um nutricionista e diga-lhe que está a pensar tornar-se vegetariano/a. Assim não correrá nenhum risco.

Os vegetarianos não são pessoas pálidas e apáticas?
Não. Pessoas mal informadas e descuidadas na alimentação, por vezes movidas por motivos exclusivamente estéticos, optam pelo vegetarianismo, provocando-lhes problemas de saúde. Os vegetarianos são pessoas normais como você que simplesmente preferem ter uma alimentação livre de sofrimento e exploração. A sua saúde é o mais importante, mas não deve ser um obstáculo para que opte por uma alimentação livre de sofrimento, uma vez que se fizer uma transição gradual e informada, não deverá ter qualquer problema. Vários estudos imparciais já concluiram que o regime alimentar vegetariano é mais saudável do que um baseado no ingestão de carne.

Eu gosto de comer carne.
Já experimentou comer comida vegetariana? Se for bem preparada, consegue ser bem mais apetitosa e saciante que a carne, para além de não lhe deixar o peso na consciência por ter provocado morte e sofrimento num animal.

Mas o animal já está morto. Eu não matei nada, só comi.
Pode não ter morto, mas deu dinheiro para matar. Ao dar dinheiro por um animal ou parte dele está a criar um “efeito de prateleira”, ou seja, ao dar dinheiro pela carne está a retirar um produto e a deixar um lugar vago na prateleira. Com esse dinheiro o comerciante vai poder matar outro animal para substituir o que acabou de levar, preenchendo o lugar vazio. De facto o animal que come já não sofre mais, mas ao alimentar esse negócio, está a fazer com que outros animais sofram em seguida.

É muito difícil deixar a carne.
Já experimentou? Não custa muito. Experimente durante algumas semanas fazendo receitas que ache que vai gostar e procurando novos alimentos. Se começar gradualmente a eliminar produtos de origem animal custa menos e, desta forma, dará tempo para que o seu corpo se habitue à sua nova alimentação. Peça ajuda a outros vegetarianos e/ou a um nutricionista.

A alimentação vegetariana não é mais cara?
Não. É claro que existem produtos congelados e prontos-a-comer que são obviamente caros porque implicam um elevado nível de processamento e ainda porque geralmente são importados. Mas uma alimentação vegetariana sem estes pequenos luxos consegue ser, sem dúvida, mais económica.

O que é que eu como se me tornar vegetariano?
Existem várias alternativas e cada dia aparecem mais. Os substitutos da carne mais comuns são o seitan, tofu, e diversas leguminosas, embora a oferta em supermercados e lojas de produtos dietéticos tenha vindo a aumentar muito nos últimos anos. Pergunte em lojas de produtos naturais ou a outros vegetarianos, procure receitas na Internet ou improvise.

19 de fevereiro de 2007

"Doença das Vacas Loucas"

BSE
Bovine Spongiform Encephalopathy

A Encefalopatia Espongiforme Bovina é provocada por versões anormais de uma proteína (priões), que, na sua versão normal, está presente à superfície das células cerebrais dos bovinos. Quando os priões entram em contacto com as proteínas normais transformam-nas em anormais e a sua acumulação provoca a degeneração do tecido nervoso, formando-se lacunas no encéfalo. Isto confere ao cérebro doente uma aparência espongiforme.
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Sintomas:
  • Alterações locomotoras e neurológicas traduzidas em posturas anormais da cabeça, perda de peso e diminuição da produção de leite
  • Apreensão e nervosismo dos animais quando confrontados com vãos, portas, ou outras entradas e passagens (98 % dos casos)
  • Alterações de postura e de movimento (93% dos casos)
  • Alterações do foro sensitivo (95% dos casos)
  • Comportamento agressivo
  • A fase clínica da doença geralmente dura várias semanas e é invariavelmente progressiva e fatal

Pensa-se que o aumento drástico do número de bovinos com BSE terá resultado da incorporação de farinha de carne nas rações destes herbívoros, a qual estaria contaminada com priões. A ingestão destes priões aumenta a probabilidade destes atingirem o tecido nervoso de cada animal e aí encontrarem a versão normal desta proteína, transformando-a na versão patogénica.

18 de fevereiro de 2007

Violência

Seria um erro trágico que mesmo apenas uma pequena secção do movimento de Libertação Animal tentasse alcançar os seus objectivos ferindo pessoas. Alguns crêem que aqueles que fazem os animais sofrer merecem que também os façam sofrer. Não acredito na vingança, mas, mesmo que acreditasse, esta seria uma distracção prejudicial à nossa tarefa de fazer cessar o sofrimento. Para o fazermos, é necessário mudar as mentes das pessoas razoáveis da nossa sociedade. Podemos estar convencidos de que quem pratica a violência sobre os animais é completamente mau e insensível, mas nós próprios desceremos a esse nível se ferirmos ou ameaçarmos ferir essa pessoa. A violência apenas gera mais violência - isto é um lugar-comum, mas a sua verdade trágica pode constatar-se na meia dúzia de conflitos que se desenrolam neste momento no mundo. A força do argumento a favor da Libertação Animal reside no seu compromisso ético: ocupamos um território moral elevado - abandoná-lo será fazer o jogo daqueles que se nos opõem.

A alternativa à via da violência é prosseguir o caminho dos dois maiores - e, não por acaso, melhor sucedidos - líderes dos movimentos de libertação do nosso tempo: Gandhi e Martin Luther King. Com uma coragem e uma determinação imensas, defenderam sempre o princípio da não violência, apesar das provocações e, frequentemente, dos ataques violentos dos seus opositores. No final, tiveram sucesso porque a justiça das suas causas não pôde ser negada, e o seu comportamento tocou mesmo aqueles que se lhes tinham oposto. Os malefícios que infligimos às outras espécies são igualmente inegáveis, uma vez vistos com clareza; e é na justeza da nossa causa, e não no medo das nossas bombas, que residem as nossas possibilidades de vitória.
Peter Singer
in prefácio à edição de 1990 de Libertação Animal

17 de fevereiro de 2007

Muuuuuu


There are people who have the capacity to imagine themselves as someone else, there are people who have no such capacity (when the lack is extreme, we call them psychopaths), and there are people who have the capacity but choose not to exercise it.

J.M. Coetzee

16 de fevereiro de 2007

Campanha Cidades Anti-Touradas

Abaixo encontra as questões e objecções mais frequentes que se colocam acerca desta campanha e da exigência do fim das touradas. As perguntas que antecipámos e que abaixo apresentamos, assim como as respostas que apresentamos abaixo, serão certamente muito úteis para levar o público a melhor compreender por que razão exigir o fim das touradas faz tanto sentido – e por que razão, particularmente, faz tanto sentido fazer campanha para criar Cidades Anti-Touradas e mesmo uma Região Anti-Touradas em Portugal, como é objectivo desta campanha da ANIMAL.

Se as touradas são uma tradição e se fazem parte da cultura portuguesa, devem ser preservadas, certo?

Errado – e é preciso expicar bem esta questão. Em primeiro lugar, não se questiona que as touradas são uma tradição – o que se afirma é que são uma tradição cruel e primitiva que não pode ser aceite de modo algum por tudo aquilo que envolve. Em segundo lugar, se por um lado se admite que as touradas de algum modo fazem parte da cultura portuguesa, por outro lado tem que se deixar claro que estão muito longe de serem um elemento importante da cultura portuguesa e que estão ainda mais longe de serem actos culturais representativos da riquíssima cultura de Portugal. Em qualquer caso, o facto de uma dada prática (como as touradas) constituir uma tradição e ser um elemento cultural (quer seja mais ou menos importante) não faz, necessariamente, com que essa prática seja imediatamente aceitável.
O princípio moral segundo o qual nos devemos abster de provocar sofrimento e/ou morte a um animal (humano ou não-humano) é, obviamente, mais forte do que um eventual interesse cultural em manter uma tradição que contrarie este princípio. É o que acontece com as touradas. Assim, as touradas devem ser proibidas por serem actos de violência absolutamente inaceitável contra animais, apesar de poderem ser consideradas uma tradição e até um elemento cultural.

Mas que princípios morais são esses? Quem os define? Os meus princípios morais podem ser diferentes dos vossos!

Está praticamente convencionado que há um conjunto de princípios morais universalmente válidos e aceites como tal. Um destes é o princípio moral segundo o qual devemos abster-nos de provocar sofrimento e/ou morte a outro animal (humano ou não-humano), a não ser quando o acto de infligir sofrimento seja cometido em legítima defesa ou para beneficiar o destinatário desse acto (por exemplo, para tratarmos um animal, humano ou não-humano, que esteja ferido poderemos, durante o tratamento, ter que lhe causar alguma dor, que, nesse caso, é justificada). Quem quiser defender que este princípio não é universalmente válido e aplicável terá que enfrentar as implicações disso, na medida em que, se defender que este princípio é relativo aos indivíduos ou a uma sociedade, estará a defender, consequentemente, que a tortura é aceitável ou condenável dependendo das crenças subjectivas de cada indivíduo ou de uma dada comunidade. A ser assim, não poderia ser universalmente convencionado que a violação dos direitos humanos é intolerável – pois, se certos indivíduos ou certas comunidades aceitassem a tortura, a perseguição e o genocídio, e se se aceitasse que existe liberdade moral para isso, não se poderia condenar, a partir de Portugal, as perseguições e actos genocidas no Darfur, Sudão, por exemplo.

Mas os humanos são mais importantes que os touros e os outros animais, pelo que não se aplicam os mesmos princípios!

Em primeiro lugar, os humanos também são animais – simplesmente, são animais da espécie humana. De um modo geral, os outros animais – entre os quais os touros – têm as mesmas características essenciais que os humanos têm e que fazem com que estes sejam seres importantes e respeitáveis. Todos os animais que têm um sistema nervoso central, ou uma estrutura neurofisiológica semelhante, são seres sencientes, ou seja, são seres que possuem a capacidade elementar de experienciar o sofrimento (e o prazer) físico e psicológico/emocional e que têm uma consciência que faz com que se sintam mal enquanto sujeitos que experienciam o sofrimento ou o prazer que sentem. Mas são seres ainda mais complexos do que isso: têm capacidade para terem desejos e planos, têm vidas sociais e afectivas complexas e têm uma personalidade própria de acordo com a qual vivem as suas vidas, que importam decisivamente para eles. Isto faz com que aquilo que lhes acontece seja importe para eles e faz com que tenham interesses elementares, aos quais devem corresponder correlativos direitos, nomeadamente: (1) o de estarem livres da tortura, física ou psicológica/emocional, (2) o de não serem mantidos prisioneiros e (3) o de não serem mortos. Os mesmos princípios morais fundamentais que se aplicam aos humanos que têm estas características devem, consistentemente, aplicar-se aos outros animais que têm as mesmas características.

O facto da tauromaquia ser uma arte não justificará a sua existência, apesar das críticas? É normal haver quem goste e quem não goste de diferentes formas de arte, mas isso não quer dizer que umas estejam certas e outras erradas.

Como já dissemos anteriormente, não se pode justificar um acto violento e injusto, como é o caso da tourada, com um facto moralmente irrelevante, como seja a ideia de que a tourada será uma arte. Pode-se também questionar que a tourada seja de facto uma arte – é estranho que se aceite que um acto que consiste simplesmente em espetar ferros compridos, com arpões no fim, nos dorsos de touros, por exemplo, seja uma arte. De qualquer modo, mesmo que se aceite que este acto pobre e indecente é uma arte, isso quererá dizer que é uma arte pobre e indecente, que é moralmente repugnante. Não é apenas uma questão de gosto e, como já dissemos acima, não é uma questão relativa. Quando direitos fundamentais de animais (humanos ou não-humanos) estão a ser postos em causa num acto de tortura absolutamente gratuita, nada importa que haja quem goste disso (se houver, é porque quem gosta disso é sádico e terá um gosto patológico pela tortura de outros), ou que isso seja uma arte, uma tradição ou um elemento cultural. É o caso da tourada e é o caso, por exemplo, da mutilação genital feminina – este último acto faz parte do código de comportamento social e tradicional de alguns povos africanos, mas é extremamente cruel e danoso para a saúde de quem é vítima deste. E, mais uma vez, o facto de ser uma tradição, de ser prezado por alguns e de ser visto como importante por quem defende ou comete este acto, não justifica o acto em si, que deve ser absolutamente condenado e proibido.

E o aspecto económico? Não é verdade que as touradas são economicamente importantes para Portugal? E, assim sendo, não deverão ser preservadas por isso?

Não, as touradas são economicamente importantes apenas para quem explora e violenta os touros e cavalos – ou seja, os toureiros, os ganadeiros e os empresários e promotores tauromáquicos. Ainda assim, mesmo que as touradas fossem economicamente importantes para Portugal (estando muito longe de o ser, sendo, além disso, um negócio em declínio), isso, mais uma vez, não serviria de justificação para que fossem mantidas. Em alguns países asiáticos há muitas famílias que forçam as suas filhas a prostituir-se desde muito novas, para alimentarem uma indústria de turismo sexual muito procurada e lucrativa. Estas crianças e jovens são violentadas e a sua liberdade é simplesmente desconsiderada em nome do benefício económico daí retirado para as suas famílias e, em grande medida, para as economias locais, que se alimentam consideravelmente das pessoas que se deslocam propositadamente a estas partes do mundo para poderem pagar para terem sexo com estas crianças e jovens. Esta é uma realidade abjecta que só merece condenação, sem hesitações, e não se pode, em circunstância alguma, tentar justificar esta indústria repugnante com o dinheiro que gera. O mesmo acontece com as touradas.

Mas as touradas são o espectáculo que mais público tem em Portugal!

De acordo com quem? Primeiro, é preciso provar isso – os defensores das touradas passam o tempo a fazer esta afirmação sem alguma vez se darem ao trabalho de a provar. Em segundo lugar, mesmo que isso fosse verdade (e tudo indica que não é), isso só significaria que, infelizmente, um público desinformado e com gosto pela crueldade pagaria para assistir à tortura de animais. No entanto, de que modo é que esse facto, a ser real, justificaria a violência tremenda de que os touros e cavalos são vítimas nestes espectáculos vergonhosos? É simples: não justifica nem justificaria.

Mas os touros foram especificamente criados para as touradas e esta espécie extinguir-se-á se as touradas acabarem.

A espécie de touro habitualmente utilizada nas touradas foi seleccionada geneticamente para que os seus indivíduos fossem torturados em touradas. É um facto. Mas isso não significa que estes indivíduos não sofram – na verdade, sofrem muito nestes espectáculos de sangue. Significa, ao invés disso, que o primeiro erro foi acreditar que é legítimo manipular geneticamente um animal em função de um espectáculo indecente no qual se quer violentar esse animal. Além disso, quando as touradas acabarem, é perfeitamente possível criar um santuário para manter em segurança os touros que forem salvos e que já não serão vítimas de crueldade extrema nestes espectáculos. Isso permitirá impedir que essa espécie se extinga. No entanto, se esta espécie se extinguisse (por exemplo, se todos os touros que fossem salvos morressem de velhice depois de uma vida feliz e se não se reproduzissem de modo a que a espécie se mantivesse), isso não teria qualquer impacto ecológico negativo, exactamente porque esta espécie antes não existia enquanto tal – como os próprios defensores das touradas passam o tempo a lembrar sobre a selecção genética da qual resultou.

Os touros não sofrem, por isso não há razão nenhuma para se querer pôr fim às touradas.

Claro que os touros sofrem – como acima referimos, os touros, como todos os outros animais, têm todas as características neurofisiológicas que fazem com que tenham a capacidade de sofrer. Além disso, basta olhar para um touro a ser torturado na tourada e todos os sinais evidentes de sofrimento estão lá: o cansaço extremo, a confusão e o pânico, a expressão de sofrimento, as lesões físicas, a carne e os músculos dilacerados, as perdas de litros de sangue, nomeadamente pela boca, entre outros sinais. Basta olhar para testemunhar este sofrimento horrível.

Sim, talvez sofram um pouco, mas os touros são animais de combate – precisam de ser lidados nas touradas para serem felizes.

É interessante que os defensores dos animais afirmem isto em defesa das touradas – os defensores das lutas de cães defendem exactamente o mesmo em relação aos cães que forçam a participar em lutas tremendamente cruéis, de onde saem já sem vida. Se todos nos opomos, sem hesitações, às lutas de cães, que são proibidas pela lei portuguesa, temos, consequentemente, que opor-nos também, sem hesitações, às touradas e exigir que sejam também proibidas.

Gostar de touradas é uma questão de liberdade – tem que haver liberdade para se gostar de touradas, para se promover estes espectáculos e para se assistir a eles, e, ao mesmo tempo, tem que haver liberdade para que quem não goste de touradas não assista a estes espectáculos.

Mais uma vez, é importante clarificar que não se pode ter a liberdade de apreciar a tortura de que outros seres são vítimas – desde logo, porque a liberdade que estes outros seres têm de estarem livres da tortura deve ser primeiramente respeitada. Isso não acontece nas touradas, obviamente.

Não estarão a tentar impor a vossa vontade aos outros só porque pensam que vocês é que estão certos?

Como também já defendemos acima, não estamos a discutir vontades pessoais nem princípios morais subjectivos; estamos, isso sim, a defender que uma das implicações elementares do princípio moral universal de que é errado cometer um acto de tortura, sobretudo se ele for cometido com fins lúdicos ou comerciais (como é o caso das touradas), é condenar as touradas de forma absoluta e exigir o seu fim imediato, total e definitivo. Esta é a atitude certa, não porque somos nós a defendê-la, mas porque está de acordo com esse princípio moral com o qual todos necessariamente concordamos.

Não é falta de patriotismo apelar a um boicote ao turismo em certas zonas de Portugal como fazem nesta vossa campanha?

Falta de patriotismo é continuar a permitir que Portugal, um país bonito que é um destinos de férias tão apreciado por tantos europeus e por tantos turistas estrangeiros de outros continentes, continue a ser um país onde os animais são tratados de forma rotineiramente cruel e em que a sua miséria seja institucionalmente cultivada. Todos os portugueses têm o dever moral de se envolver na protecção dos animais e na concretização de medidas que aumentem a protecção destes, e que todas as autoridades públicas portuguesas têm o dever de tomar medidas urgentes para fazer com que Portugal deixe de ser um inferno para os animais. Isso passa, necessariamente, por proibir as touradas, entre outros actos cruéis cometidos contra animais. Ao exigirmos a proibição das touradas, estaremos a ser efectivamente um povo patriota que quer que o seu país tenha uma imagem moderna e civilizada – e uma realidade que de facto lhe corresponda, em que os animais sejam respeitados e protegidos. Ao proibirem as touradas, as autoridades públicas portuguesas estarão, na verdade, a defender os interesses de Portugal e da economia portuguesa e a imagem de um país que, presentemente, é considerado incivilizado e subdesenvolvido na maneira como lida com os animais e os problemas que drasticamente os afectam aqui.


Tauromaquia

A tauromaquia é a terrível e venal arte de torturar e matar animais em público, segundo determinadas regras. Traumatiza as crianças e adultos sensíveis. A tourada agrava o estado dos neuróticos atraídos por estes espectáculos. Desnaturaliza a relação entre o homem e o animal, afronta a moral, a educação, a ciência e a cultura.
Declaração da UNESCO, 1980

14 de fevereiro de 2007

Direitos dos Animais

O Que é o Movimento Pelos Direitos dos Animais?

O movimentos pelos direitos dos animais é um movimento de justiça social, tal como o foram (ou são ainda) o movimento pela abolição da escravatura, o movimento pelos direitos das mulheres e, mais recentemente, o movimento pelos direitos dos homossexuais.

Os direitos dos animais, advogados pelo movimento pelos direitos dos animais, conferem aos animais certos privilégios ou regalias e impõem aos humanos determinadas restrições na forma como interagem com os animais.

À semelhança do que sucede com os direitos humanos, é uma consequência dos direitos dos animais que não podemos maltratar os animais sem motivo, tal como não podemos maltratar uma pessoa apenas porque nos apetece.

O movimento pelos direitos dos animais opõe-se ao tratamento cruel dos animais, à sua utilização para alimentação dos humanos, à sua exploração para entretenimento dos humanos, bem como a quaisquer outras formas de exploração dos animais.


Quais São os Objectivos do Movimento Pelos Direitos dos Animais?

O movimento pelos direitos dos animais pretende garantir que os animais sejam tratados com o respeito que merecem, defendendo a abolição de todas as formas injustificadas de exploração dos mesmos por parte dos humanos.

Alguns dos principais objectivos são:



  • Abolição da exploração e abate de animais para consumo humano ou uso (advogando o vegetarianismo).

  • Fim da exploração de animais para entretenimento dos humanos (por exemplo, circos com animais ou touradas).

  • Abolição da experimentação em animais (experimentação com fins comerciais e eventualmente experimentação científica e médica).


Quais São as Bases Científicas Para Reconhecer Direitos aos Animais?

O movimento pelos direitos dos animais tem fortes bases científicas, bases essas que tendem a fortalecer-se cada vez mais à medida que a ciência avança, tabus se desfazem, e se comprova que os animais são, em muitos aspectos fundamentais, idênticos a nós.

Poderá dizer-se que a ciência começou a dar razão a quem reconhece direitos aos animais com as descobertas de Darwin, no século XIX, quando este afirmou que os humanos partilham a sua ascendência com os primatas, não sendo o resultado de nenhuma criação especial, como se acreditava até então. Hoje, está cientificamente comprovado que muitos animais, ditos sencientes, têm a capacidade de experimentar diversas sensações. Tal como os humanos, esses animais podem alegrar-se ou entristecer-se, ter desejos, recordações, e agir de modo intencional.

No entanto, a ciência tem sido também um grande obstáculo ao movimento pelos direitos dos animais, como o foi ao movimento pelo fim da escravatura, por exemplo. Agora e então, a ciência é usada por alguns para alimentar preconceitos e assim se manter o status quo.


Qual é a Diferença Entre Direitos dos Animais e Bem-estar Animal?

A política de defesa do bem-estar animal admite que os animais sejam utilizados pelos humanos como meios para atingir os fins desejados, mas advoga que sejam dadas melhores condições aos animais (as condições mínimas de bem-estar).

Por exemplo, a filosofia de bem-estar animal defende que os animais abatidos para consumo humano sejam mortos de foram mais humana (i.e., com menos sofrimento), enquanto que, segundo a filosofia dos direitos dos animais, não se justifica de todo que os animais sejam abatidos para consumo humano.

Tomando por exemplo a escravatura, a política de bem-estar animal pode ser comparável à política que defendia que os escravos deviam ser tratados de forma mais humana (mas que pretendia ao mesmo tempo legitimar e perpetuar a escravatura), enquanto que a política dos direitos dos animais pode ser comparada à política abolicionista que considerava inaceitável a escravatura (independentemente do tratamento dos escravos ser mais ou menos humano).


Pode a Defesa dos Direitos dos Animais Ser Conciliável Com a Defesa do Bem-estar Animal?

Com certeza. Quem defende os direitos dos animais defende geralmente também o bem-estar animal (embora o inverso não seja tão comum).

A questão fundamental é que quem advoga os direitos dos animais não concorda com algumas estratégias ou políticas de bem-estar animal por estas não serem consideradas adequadas aos objectivos do movimento; ou por se considerar que determinadas acções ou campanhas estão a legitimar ou a contribuir para a institucionalização de determinadas práticas de exploração animal.

Por exemplo: um defensor dos direitos humanos não faz campanha para que os condenados à morte tenham direito a uma morte mais indolor. Faz, sim, campanha pelo fim da pena de morte (embora obviamente também concorde que a morte de um condenado deve ser o mais indolor possível). Do mesmo modo, um defensor dos direitos dos animais não faz campanha para que os animais do circo tenham jaulas maiores mas sim para que sejam retirados do circo e possam viver num habitat mais próximo do seu habitat natural.


É Verdade Que, Segundo o Movimento Pelos Direitos dos Animais, Não Há Diferença Entre Humanos e Animais Não-humanos?

Não. Existem seguramente muitas diferenças entre os animais não-humanos e os humanos. O que a filosofia dos direitos dos animais diz é que em muitos aspectos fundamentais os animais são idênticos a nós e que isso é suficiente para que tenham determinados direitos.

O facto de a vida humana ser unicamente valiosa, como muitos crêem, não é razão suficiente para dizer que os humanos são superiores a qualquer outra forma de vida. Muito provavelmente existirão formas de vida extraterrestre mais avançadas e inteligentes do que nós, e nós seguramente não gostaríamos que eles -- por se considerarem superiores a nós -- se sentissem no direito de nos explorar a seu bel-prazer.



6 de fevereiro de 2007

Aborto

A crença de que a mera condição de pertencer à nossa espécie, independentemente de outras características, tem grande importância para o mal de matar um ser constitui um legado de doutrinas religiosas que até mesmo aqueles que se opõem ao aborto hesitam em trazer para o debate.

O reconhecimento desta questão simples altera a questão do aborto. Podemos agora olhar para o feto tal como ele realmente é - vendo as características reais que possui - e podemos avaliar a sua vida colocando-a no mesmo escalão em que colocamos as vidas dos seres com características semelhantes que não são membros da nossa espécie. Torna-se agora claro que o nome do movimento Pró-Vida ou Direito à Vida é enganador. Longe de se preocupar com toda a vida ou de adoptar uma escala de preocupação imparcialmente baseada na natureza da vida em questão, quem protesta regularmente contra o aborto, mas come com a mesma regularidade carne de frango, porco ou vaca, revela apenas uma preocupação tendenciosa pela vida dos membros da sua própria espécie. Porque, em qualquer comparação justa de características moralmente relevantes - como a racionalidade, a autoconsciência, a consciência, a autonomia, o prazer e o sofrimento, etc. - , a vaca, o porco e a tão ridicularizada galinha, ficam muito à frente do feto em qualquer estádio da gravidez - e, se fizermos a comparação com o feto de menos de 3 meses, um peixe mostra maiores sinais de consciência.

Peter Singer
in Ética Prática, 2000

5 de fevereiro de 2007

A protecção dos animais não humanos


Há uma tendência para pensar que os animais não humanos não podem ser objecto de protecção jurídica. Esta ideia baseia-se na premissa de que os animais não humanos não têm relevância moral. O argumento mais intuitivo a favor desta premissa baseia-se na ideia de que os animais não humanos não têm direitos porque não têm deveres. Mas este argumento é muitíssimo fraco dado que os bebés não têm deveres mas têm direitos. O mesmo acontece com os idosos senis ou as pessoas em coma profundo. Em nenhum destes casos essas pessoas não têm direitos só porque não têm deveres.

[...]

Os animais não humanos são efectivamente protegidos pela lei e é o seu bem-estar que está em causa em muitas leis que regulam o transporte de animais não humanos vivos, por exemplo, ou o modo como têm de ser abatidos nos matadouros. O problema legal que temos é a inconsistência em que nos encontramos. Algumas das leis que temos só fazem sentido se aceitarmos que o bem-estar dos animais não humanos tem de ser levado em linha de conta. Mas ao mesmo tempo não somos consistentes com essa ideia e não encaramos com seriedade o que tem de ser feito para proteger adequadamente os animais. Somos como uma sociedade esclavagista, que nega aos escravos a protecção legal mais elementar, mas depois tem várias disposições que só fazem sentido sob a suposição de que os escravos têm direito à protecção legal.

Desidério Murcho
in Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade, 2006

2 de fevereiro de 2007

Libertação Animal

Um movimento de libertação exige o alargamento dos nossos horizontes. As práticas que anteriormente eram consideradas naturais e inevitáveis passam a ser vistas como resultado de um preconceito injustificável. Quem pode afirmar com alguma confiança que nenhuma das suas atitudes e práticas pode ser posta legitimamente em causa? Se desejamos evitar ser contados entre os opressores, devemos estar dispostos a repensar as nossas atitudes face aos outros grupos, incluindo as mais básicas. Devemos considerar as nossas atitudes do ponto de vista daqueles que sofrem devido a elas e devido às práticas que lhes estão associadas. Se conseguirmos proceder a esta invulgar mudança de perspectiva mental, talvez consigamos descobrir um padrão nas nossas atitudes e práticas cujo objectivo é o favorecimento constante do mesmo grupo - geralmente o grupo ao qual nós mesmos pertencemos - à custa de outro grupo. Chegamos assim à conclusão de que há argumentos a favor do aparecimento de um novo movimento de libertação.

Peter Singer
in prefácio à edição de 1975 de Libertação Animal