Ex.mas Senhoras e Ex.mos Senhores:
Foi com enorme perplexidade que assistimos à reportagem especial da SIC e da Visão denominada "100% Vegetal". É incrível como se promove a ignorância e o receio sob a capa do jornalismo.
Começa por não se compreender porque motivo a reportagem ignorou por completo a principal razão para alguém ser estritamente vegetariano (vegano): o respeito pelos animais e a vontade de não contribuir para que estes sofram desnecessariamente. Como é possível falar de uma dieta estritamente vegetariana sem nunca abordar a sua principal motivação? Para confundir mais o público, foram-nos apresentados os hábitos alimentares de uma família macrobiótica que nem sequer é vegetariana, muito menos estritamente vegetariana. Terá sido mesmo este o exemplo mais próximo do vegetarianismo estrito que conseguiram arranjar?
Outro erro de casting (ou talvez não) foi a doutora Isabel do Carmo, endocrinologista e nutricionista que, por acaso, também é uma confessa opositora da dieta vegetariana e não perde uma oportunidade para criticar este regime alimentar.
O mínimo que se poderia esperar seria a presença de um nutricionista com conhecimentos sobre dietas vegetarianas que fornecesse algumas indicações úteis para uma dieta vegetariana equilibrada, ao invés de uma nutricionista que pouco ou nada percebe de vegetarianismo e que não se viu sequer fornecer nenhuma indicação sobre nutrição.
Sendo o assunto tão enfadonho, a SIC achou por bem tornar a reportagem um pouco mais espectacular, dando destaque supremo a umas análises clínicas sem nenhum valor científico, afirmando que as ditas análises "provavam tudo" e que os resultados eram "significativos e surpreendentes". Infelizmente, a única coisa que aqui há de significativo e surpreendente é o sensacionalismo e a completa ausência de rigor jornalístico.
Por um lado, é evidente que as análises de uma única pessoa apenas dois meses após uma mudança radical de dieta não têm nenhum valor científico. Por outro lado, o sujeito da experiência não fez, nem de longe, um planeamento adequado da sua nova dieta e, por conseguinte, não pode ser tomado como exemplo para coisa nenhuma. Em contraponto, a grande maioria dos vegetarianos estritos são pessoas conscientes que fazem um planeamento cuidado da sua dieta, o qual lhes permite uma obter uma nutrição adequada.
Hoje em dia, é consensual que as dietas vegetarianas (incluindo o vegetarianismo estrito) bem planeadas são perfeitamente apropriadas a todas as fases da vida, apresentado inclusive diversas vantagens relativamente à dieta omnívora. Quem o diz são próprias associações de nutricionistas do Reino Unido, dos Estados Unidos e do Canadá, por exemplo.
Solicitamos à SIC e à Visão que reponham, com o mesmo destaque que foi dado a esta pseudo-reportagem, a verdade dos factos sobre a dieta vegetariana, com recurso a informações fidedignas e não a opiniões preconceituosas e mal informadas.
Gratos pela atenção dispensada, subscrevemo-nos.
Atenciosamente,
Sónia Pinto Vieira
P'la Direcção da Associação Pelos Animais
http://www.pelosanimais.org.pt/
14 de janeiro de 2008
Carta Aberta à Visão e SIC sobre repórter vegano durante 2 meses - por «Centro Vegetariano»
Antes de mais, gostaríamos, em nome do Centro Vegetariano, de felicitar a Visão e a SIC por abordarem um tema como o Vegetarianismo, que certamente interessa a uma vasta fatia da população e tem apresentado um crescimento significativo no nosso país – bem hajam, e esperamos que não seja a última vez.
Em seguimento do que lemos e vimos, como médicos de formação convencional (um Vegetariano, outro omnívoro), gostaríamos de acrescentar:
- A transição entre dois tipos de dietas diferentes deve ser gradual, não feita de um dia para o outro. Com uma transição gradual, eventualmente passando por um período de ovo-lacto-vegetarianismo, o repórter teria certamente adquirido uma outra perspectiva. A transição para o Veganismo, como para qualquer outro tipo de dieta, exige um período de adaptação do organismo e de recolha activa de informação, para uma boa escolha dos alimentos e locais para adquiri-los ou tomar refeições.
- Uma má alimentação é sempre uma má alimentação, independentemente da dieta ser Vegetariana, Omnívora ou outra. Comer em excesso doces ou carne produz sempre maus resultados, independentemente da dieta seguida. Assim, teria sido vantajoso o repórter ter seguido um plano nutricional estabelecido por um profissional da área, pelo menos na fase inicial em que desconhecia o que comer ou onde comer.
- Não temos dúvidas em afirmar que uma dieta vegetariana racional é saudável e acima de tudo muito mais ética e ecológica que uma dieta omnívora convencional, por muito racional que esta dieta omnívora o seja.
- A vitamina B12 é armazenada no fígado em grandes quantidades, sendo que um súbito défice nutricional ao nível deste nutriente leva a que apenas passados largos meses (ou anos) se verifique uma diminuição significativa deste nutriente nos doseamentos sanguíneos, e não em apenas poucas semanas, tempo de duração da experiência. Tendo em conta, para além disto, que o doseamento de vitamina B12 não é 100% fiável, pode-se inferir que ou o repórter em causa apresentava a priori baixos níveis desta vitamina (por possível regime alimentar inadequado) ou o doseamento de controlo desta não se deverá considerar válido.
- A maior parte dos casos de deficiência de B12 não se deve à baixa ingestão da vitamina, mas sim a deficiências na sua digestão e absorção. Qualquer vegano deve saber que a vitamina B12 é o único nutriente que dificilmente se obtém em quantidade suficiente em alimentos de origem vegetal, pelo que se devem ingerir alimentos enriquecidos com esse nutriente ou um suplemento vitamínico.
- A apresentação dos valores de referência dos parâmetros analisados seria útil ao leitor leigo.
- Parece-nos redutor indicar que se “estimam 30000 vegetarianos” em Portugal, sem tão pouco citar as entidades responsáveis pelo estudo. Na realidade, este número resulta do primeiro estudo sério e credível feito em Portugal, como o repórter foi devidamente informado pelo Centro Vegetariano quando o contactou. O resultado foi obtido num estudo do Centro Vegetariano, realizado em Outubro de 2007 pela empresa Nielsen, líder mundial em estudos de mercado, e consistiu na realização de 2000 entrevistas, a indivíduos entre os 15 e 65 anos residentes em Portugal Continental, que são uma amostra representativa da população Portuguesa.
- As reportagens centram-se nas dificuldades do autor nos supermercados e restaurantes convencionais. É pena que não sejam relatadas com o mesmo ênfase as experiências positivas. Forçar refeições veganas num restaurante convencional, simplesmente eliminando ingredientes, não é certamente a escolha mais perspicaz.
- O "cabaz vegetariano" está longe de ser o cabaz típico de um vegano. Por exemplo, a maioria das marcas bolachas de água e sal no mercado são veganas, não há qualquer justificação lógica para o preço ser diferente em cada cabaz. As fontes proteicas apresentadas também incluíam ingredientes mais caros, como o tofu e seitan, e não soja texturizada ou leguminosas, bem menos dispendiosas do que a carne ou peixe. Ser vegetariano está longe de ser mais caro, basta pensar que a base desta alimentação é fruta, legumes, leguminosas e cereais, alimentos de baixo custo.- Como todas as transições ou mudanças significativas no estilo de vida ou hábitos alimentares, a transição para o Vegetarianismo requer alguma informação, a qual deve ser obtida a partir de fontes fidedignas e fiáveis. Esta está disponível gratuitamente, designadamente na Internet, salientando-se a nível nacional o CentroVegetariano.org, e a nível internacional sites de referência como o do Physicians Committee for a Responsible Medicine, ou a posição da American Dietetic Association e Dietitians of Canada. Curioso é que, dos contactos que o repórter fez com o Centro Vegetariano, que lhe forneceu uma grande quantidade de informação, contactos e referências, nos parece que terá efectuado um bom trabalho de pesquisa. Infelizmente, esta pesquisa foi totalmente deixada de lado em favor de artigos sensacionalistas e de credibilidade jornalística duvidosa, que em nada dignificam o bom nome que a revista Visão e a SIC têm vindo a consolidar ao longo dos anos.
Assim, e em nome do rigor, da qualidade informativa e do bom jornalismo, que esperamos sejam motes das vossas revista e estação de televisão, sugerimos que colmatem as lacunas, ou pelo menos informem sobre o que por ora apontamos. Sem mais, subscrevemo-nos com a mais elevada consideração.
Em nome do Centro Vegetariano,
António Paiva, Médico
José Ramos, Médico
http://www.centrovegetariano.org/Article-463-Carta%2BAberta%2B%25E0%2BVis%25E3o%2Be%2BSIC%2Bsobre%2Brep%25F3rter%2Bvegano%2Bdurante%2B2%2Bmeses.html
Em seguimento do que lemos e vimos, como médicos de formação convencional (um Vegetariano, outro omnívoro), gostaríamos de acrescentar:
- A transição entre dois tipos de dietas diferentes deve ser gradual, não feita de um dia para o outro. Com uma transição gradual, eventualmente passando por um período de ovo-lacto-vegetarianismo, o repórter teria certamente adquirido uma outra perspectiva. A transição para o Veganismo, como para qualquer outro tipo de dieta, exige um período de adaptação do organismo e de recolha activa de informação, para uma boa escolha dos alimentos e locais para adquiri-los ou tomar refeições.
- Uma má alimentação é sempre uma má alimentação, independentemente da dieta ser Vegetariana, Omnívora ou outra. Comer em excesso doces ou carne produz sempre maus resultados, independentemente da dieta seguida. Assim, teria sido vantajoso o repórter ter seguido um plano nutricional estabelecido por um profissional da área, pelo menos na fase inicial em que desconhecia o que comer ou onde comer.
- Não temos dúvidas em afirmar que uma dieta vegetariana racional é saudável e acima de tudo muito mais ética e ecológica que uma dieta omnívora convencional, por muito racional que esta dieta omnívora o seja.
- A vitamina B12 é armazenada no fígado em grandes quantidades, sendo que um súbito défice nutricional ao nível deste nutriente leva a que apenas passados largos meses (ou anos) se verifique uma diminuição significativa deste nutriente nos doseamentos sanguíneos, e não em apenas poucas semanas, tempo de duração da experiência. Tendo em conta, para além disto, que o doseamento de vitamina B12 não é 100% fiável, pode-se inferir que ou o repórter em causa apresentava a priori baixos níveis desta vitamina (por possível regime alimentar inadequado) ou o doseamento de controlo desta não se deverá considerar válido.
- A maior parte dos casos de deficiência de B12 não se deve à baixa ingestão da vitamina, mas sim a deficiências na sua digestão e absorção. Qualquer vegano deve saber que a vitamina B12 é o único nutriente que dificilmente se obtém em quantidade suficiente em alimentos de origem vegetal, pelo que se devem ingerir alimentos enriquecidos com esse nutriente ou um suplemento vitamínico.
- A apresentação dos valores de referência dos parâmetros analisados seria útil ao leitor leigo.
- Parece-nos redutor indicar que se “estimam 30000 vegetarianos” em Portugal, sem tão pouco citar as entidades responsáveis pelo estudo. Na realidade, este número resulta do primeiro estudo sério e credível feito em Portugal, como o repórter foi devidamente informado pelo Centro Vegetariano quando o contactou. O resultado foi obtido num estudo do Centro Vegetariano, realizado em Outubro de 2007 pela empresa Nielsen, líder mundial em estudos de mercado, e consistiu na realização de 2000 entrevistas, a indivíduos entre os 15 e 65 anos residentes em Portugal Continental, que são uma amostra representativa da população Portuguesa.
- As reportagens centram-se nas dificuldades do autor nos supermercados e restaurantes convencionais. É pena que não sejam relatadas com o mesmo ênfase as experiências positivas. Forçar refeições veganas num restaurante convencional, simplesmente eliminando ingredientes, não é certamente a escolha mais perspicaz.
- O "cabaz vegetariano" está longe de ser o cabaz típico de um vegano. Por exemplo, a maioria das marcas bolachas de água e sal no mercado são veganas, não há qualquer justificação lógica para o preço ser diferente em cada cabaz. As fontes proteicas apresentadas também incluíam ingredientes mais caros, como o tofu e seitan, e não soja texturizada ou leguminosas, bem menos dispendiosas do que a carne ou peixe. Ser vegetariano está longe de ser mais caro, basta pensar que a base desta alimentação é fruta, legumes, leguminosas e cereais, alimentos de baixo custo.- Como todas as transições ou mudanças significativas no estilo de vida ou hábitos alimentares, a transição para o Vegetarianismo requer alguma informação, a qual deve ser obtida a partir de fontes fidedignas e fiáveis. Esta está disponível gratuitamente, designadamente na Internet, salientando-se a nível nacional o CentroVegetariano.org, e a nível internacional sites de referência como o do Physicians Committee for a Responsible Medicine, ou a posição da American Dietetic Association e Dietitians of Canada. Curioso é que, dos contactos que o repórter fez com o Centro Vegetariano, que lhe forneceu uma grande quantidade de informação, contactos e referências, nos parece que terá efectuado um bom trabalho de pesquisa. Infelizmente, esta pesquisa foi totalmente deixada de lado em favor de artigos sensacionalistas e de credibilidade jornalística duvidosa, que em nada dignificam o bom nome que a revista Visão e a SIC têm vindo a consolidar ao longo dos anos.
Assim, e em nome do rigor, da qualidade informativa e do bom jornalismo, que esperamos sejam motes das vossas revista e estação de televisão, sugerimos que colmatem as lacunas, ou pelo menos informem sobre o que por ora apontamos. Sem mais, subscrevemo-nos com a mais elevada consideração.
Em nome do Centro Vegetariano,
António Paiva, Médico
José Ramos, Médico
http://www.centrovegetariano.org/Article-463-Carta%2BAberta%2B%25E0%2BVis%25E3o%2Be%2BSIC%2Bsobre%2Brep%25F3rter%2Bvegano%2Bdurante%2B2%2Bmeses.html
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